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A alimentação "perfeita" deve excluir industrializados?


Se você tem a sensação de que se esforça tanto para "comer certinho", mas nunca consegue, não desanime –você não está sozinho. O terrorismo nutricional faz isso com as pessoas, é um excesso de informação tão grande, que a confusão é cada vez maior.

Só que essa preocupação exagerada diante de decisões que deveriam ser razoavelmente simples, como o que comprar no supermercado ou o que escolher no buffet do restaurante, por exemplo, acabam gerando um desgaste enorme. Muitos se sentem culpados por comer certas coisas, simplesmente porque dizem que "faz mal", "intoxica o organismo", "é veneno", "engorda".

Por isso hoje quero falar um pouco sobre os alimentos industrializados: será que, para ter uma alimentação "perfeita", precisamos eliminá-los completamente das nossas vidas?

Bom, para começar, não existe alimentação "perfeita". A vida não é algo 100% previsível e, ainda que você seja extremamente organizado, vai ter que saber lidar com imprevistos e com mudanças de planos.

Planejar, realmente, é uma das mais eficazes estratégias para se comer bem. Uma vez que você estabelece uma rotina de compras no supermercado, dias da semana para cozinhar e uma certa regularidade de horários para as refeições, fica bem mais fácil conseguir se alimentar com mais qualidade. Mas sabemos que, ainda assim, estamos sujeitos a mudanças de planos no meio do caminho.

E é aí que entram os industrializados. Práticos e disponíveis em qualquer esquina, matam a fome na hora do "aperto".
Mas "pode" comer? Faz mal? Engorda?

De fato, muitos estudos demonstram que, quando consumidos em excesso, os industrializados podem aumentar o risco de diversas doenças, como alguns tipos de câncer e hipertensão. Além disso, também já sabemos que eles contribuem para o aumento dos índices de sobrepeso e obesidade como bem observado pela equipe do Prof. Carlos Monteiro do Nupens da USP, coordenador do Guia alimentar para a população brasileira.

Por aqui, já temos mais de 20% de brasileiros obesos e mais da metade da população com sobrepeso, segundo a Pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção de Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel).

Ao mesmo tempo, um relatório da Organização Panamericana de Saúde (OPAS/OMS) mostra que as vendas de alimentos ultraprocessados em 13 países latino-americanos, incluindo o Brasil, aumentaram 26,7% entre 2000 e 2013.

Mas isso não quer dizer que precisamos nos desesperar e achar que estamos fazendo "tudo errado" quando consumimos um alimento industrializado. Precisamos da indústria que nos fornece alimentos práticos, higienizados e nutritivos. O segredo é compreender melhor as diferenças entre os alimentos e saber fazer as melhores escolhas. Separei aqui algumas dicas.

1. Saiba diferenciar

O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda: "prefira sempre alimentos in natura ou minimamente processados e preparações culinárias a alimentos ultraprocessados".

Mas você sabe o que isso significa? Entende bem estas categorias? Vamos simplificar. Tente pensar em uma escala, que começa no "in natura" e termina nos ultraprocessados. Quanto mais processado for, significa que menos tem de alimento de verdade ali dentro. Então, para ficar mais fácil:

Quais são os alimentos naturais?
Entram nessa categoria os alimentos in natura e os minimamente processados, que devem estar mais presentes na nossa alimentação.

Alimentos in natura ou minimamente processados: são aqueles que vêm diretamente de plantas ou animais (frutas e legumes, grãos, carnes de todos os tipos, leite, ovos) e que não passaram por nenhum processo industrial ou passaram por poucos processos industriais, como limpeza, moagem e pasteurização, mas não recebem substâncias químicas. Exemplos: arroz, milho, feijões, lentilhas, grão de bico, castanhas, amendoim, farinhas diversas, macarrão, leite, iogurtes naturais sem adição de açúcar etc.

Quais são os alimentos industrializados?

São os processados e ultraprocessados, que devem estar menos presentes na nossa alimentação, por serem ricos em gordura, sódio, açúcar e outros ingredientes artificiais.

Alimentos processados: passam por etapas industriais e podem receber aditivos químicos como conservantes, aromatizantes e corantes, para durarem mais ou ficarem mais saborosos (legumes em conserva, compotas, queijos, pães, atum ou sardinha em lata, entre outros).

Alimentos ultraprocessados: têm pouco ou nada de alimento de verdade em sua base, ou seja, são fórmulas da indústria, feitas com vários ingredientes artificiais (refrigerantes, sopas e macarrão instantâneo, salsicha e outros embutidos, comida pronta congelada, bolacha recheada, salgadinhos, misturas para bolo, molhos para salada, nuggets, etc.)

Não é tão complicado: conhecendo essas categorias, fica mais fácil escolher! Tudo em paz e lembrando que alimentos são alimentos e não deveriam ser chamados de venenos.

2. Exija mais qualidade. Você tem o poder de escolha!

Se você tem o poder de compra, você tem o poder de mudar a oferta de produtos no Brasil. Eu sempre cito o exemplo do iogurte porque é muito ilustrativo: se você comprar um iogurte natural, e acrescentar morango e açúcar, com certeza vai ter um alimento de mais qualidade e menos doce do que se comprar um iogurte saborizado.

O Brasil é um país rico em frutas, verduras e legumes, mas, infelizmente, a legislação com relação aos alimentos industrializados ainda é muito permissiva. O mesmo produto que é vendido aqui e em outros países vai ter quantidades de açúcar, sódio, gordura e aditivos químicos completamente diferentes.

Então, você pode reverter isso simplesmente escolhendo melhor os alimentos que leva para a sua casa. Valorizando mais os que são menos processados!

3. Não precisa ser tão radical

Sim, o ideal é comer mais alimentos frescos, mas dependemos da indústria nas grandes cidades, porque ela nos ajuda a ter alimentos higienizados e práticos. Pense assim: os alimentos processados podem ser uma ajuda para que você prepare refeições caseiras, então, mantenha na despensa ingredientes que podem te ajudar a cozinhar sem ter tanto trabalho. Como por exemplo: um molho de tomate de boa qualidade, leite de coco, atum, grão-de-bico, etc.

Os ultraprocessados também podem entrar ocasionalmente, mas não devem ser regra. Em vez de um bolo de caixinha, por que não adquirir o hábito de fazer bolo caseiro? No lugar do refrigerante, por que não fazer uma água aromatizada com ervas e frutas, um chá gelado ou simplesmente insistir no tão positivo hábito de tomar água? Mude hábitos, melhore sua saúde.

4. Não se iluda com rótulos

Na onda dos produtos "saudáveis", tem gente que prefere comprar suco de caixinha porque a embalagem diz que é enriquecido com vitaminas. Na onda do sem glúten, tem gente que gasta um dinheirão comprando pacotinhos de bolachinhas, pães e outros itens, e acabam se esquecendo que mandioca, pão de queijo e o arroz e feijão também não têm glúten!

A chave para uma boa saúde não está em dietas malucas e restrições, e sim, em uma consciência maior sobre as nossas escolhas.

Bon appétit!

Fonte: Viva Bem (UOL)