05AGO

O prato pode ficar ainda mais cheio



Tribuna de honra das embalagens de polipropileno biorientado (BOPP), o macarrão vive uma situação intrigante no Brasil. Tem lugar cativo na cesta básica, penetração absoluta nos domicílios e, além de o Brasil formar entre os maiores produtores e consumidores globais de massas, o macarrão tem nome feito como alimento saudável, barato, fácil de cozinhar, de apelo gourmet e figura entre os pratos prediletos da população. Apesar dessa constelação de predicados, o consumo per capita do produto permanece a léguas do total esplendor. Esta aparente contradição é destrinchada na entrevista a seguir por Claudio Zanão, presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias e Pães & Bolos Industrializados (Abimapi).

Macarrão é prato tradicional, saboroso, nutritivo, barato e do agrado da população. Ainda assim, sua penetração é considerada muito abaixo do potencial no Brasil. Por que?
O macarrão está presente em 99,3% dos lares brasileiros e o país é o terceiro produtor mundial do produto, aponta estudo da Organização Mundial de Pasta (IPO), perdendo só para Itália e EUA. Quanto ao consumo, no entanto, o brasileiro consome cerca de 6 kg de massas por ano, bem abaixo da Itália, onde o consumo per capita, o maior do mundo, chega a 25,3 kg e a oferta ultrapassa as 500 versões de massas, enquanto aqui temos mais de 60 tipos. Somos o quarto mercado consumidor de macarrão no planeta. Quando dividimos pelo número de habitantes, somos o 15° per capita. A Venezuela é o segundo, com o dobro do consumo individual do Brasil, em torno de 12kg.

Uma pesquisa de hábitos de consumo que realizamos em 2018 com a consultoria Kantar identificou – numa amostra de 11.300 lares representativa de um contingente de 53 milhões de famílias em sete macrorregiões – que os brasileiros gostam de comer massas em casa. E metade desse universo prefere o tipo espaguete com molho à bolonhesa.
Do ponto de vista cultural, acreditamos que onde se gasta mais com macarrão é dentro do lar, talvez pela aceitação, pela praticidade em prepará-lo ou por ser nutritivo. O produto ainda é visto e lembrado como um alimento que reúne as famílias, como a macarronada de domingo. O brasileiro ainda não consegue explorar a diversidade que o macarrão pode trazer, em formatos e combinações de molhos para acompanhar.

Qual o tipo de macarrão mais consumido no Brasil e por quais motivos?
As massas secas (tradicional, caseira, sêmola, integral, grano duro e com ovos) são as preferidas, respondendo por 81,3% do consumo nacional, o que correspondia a cerca de 744.900 toneladas em 2018. Em seguida, aparecem as instantâneas (lámen), com 14,7% (134.600 toneladas), e as frescas (dependentes de refrigeração), com 4% ou 36.600 toneladas.

Qual o perfil do consumidor de massas no Brasil?
O comprador de massas secas e frescas é mais velho que o de instantâneas: 50 + anos para secas e frescas e até 39 anos para instantâneas. A grande diferença entre o público dessas duas categorias é o poder aquisitivo: as secas são mais consumidas pelas classes D/E e as frescas, pelas A/B. As instantâneas também têm maior consumo nas classes D/E.
Nas subcategorias das massas secas, as menos consumidas por aqui são as de grano duro – representam 0,3% (2.700 toneladas) do mercado e as integrais, 0,2% (1.800 toneladas).

O grano duro é muito consumido na Europa, por outro lado, não faz parte dessa preferência nacional seja por uma questão cultural (brasileiro prefere macarrão mais mole), seja pelo preço, em geral mais alto. Quanto às massas integrais, ainda estão em processo de aceitação pelo consumidor, provavelmente pela textura e cor, um pouco mais escura.

Pandemia e recessão estimulam o hábito de cozinhar em casa. A seu ver, este cenário adverso pode favorecer o aumento do consumo brasileiro de macarrão mais do que o hábito de comer fora?
O aumento do consumo per capita depende da frequência de consumo semanal. Por estarmos realizando as refeições em casa, temos a chance de crescer talvez em torno de 500 g a mais este ano.

Muitos consumidores no começo da pandemia foram aos supermercados com o intuito de estocar alimentos em casa e optando pelos não perecíveis, como macarrão e biscoitos, por exemplo. Em muitos casos, o abastecimento da despensa adiantou as compras futuras, o que gerou um ponto mínimo de vendas a médio prazo, à medida que esses produtos foram consumidos gradualmente.

Em decorrência da mudança dos hábitos, por conta da pandemia da COVID-19, as pessoas estão optando por produtos com maior shelf life, praticidade e um bom custo-benefício, o que gerou, entre fevereiro e abril, um aumento médio de 15% no volume de vendas das categorias ABIMAPI, isto é, biscoitos, massas e pães.

Fora instituir o Dia do Macarrão, quais as ações cogitadas pela Abimapi para incrementar o consumo nacional dessa massa?
Produtos com grãos integrais, com baixo teor de sódio, sem açúcares ou desprovidos de lactose, por exemplo, são opções que ajudam as pessoas a colocar em prática hábitos de vida mais saudáveis. Estão se tornando tendências de consumo. Além disso, a preocupação com a sustentabilidade vem norteando a tomada de decisão no momento de compra. A indústria já está engajada com estas duas vertentes, reformulando embalagens e ingredientes; atualizando modelos de negócios e integrando a sustentabilidade nos pontos de contato com consumidores.

Para promover o consumo de macarrão, é necessário trabalhar com a imprensa trazendo informações de credibilidade e qualidade. Possuímos três pilares. Um deles é a parte institucional, na qual repassamos à mídia dados sobre produtos, mercado e as datas comemorativas. A segunda frente diz respeito à saúde, defendendo a alimentação equilibrada e sem vilanizar qualquer alimento. Por fim, temos as receitas, trabalhadas como sugestões para formular pratos nutritivos e saborosos.

Pelas projeções da Abimapi, como devem se comportar as vendas domésticas de macarrão este ano versus 2019? E 2020 deve fechar com qual indicador de consumo per capita de macarrão no Brasil?
A expectativa é chegar ao final de 2020 com um crescimento em volume de 3% a 5%, em média, seria um ótimo resultado. Esperamos como disse, um aumento de 500g no consumo per capita. O setor de massas alimentícias registrou aumento de 6,6% em faturamento e 1,04% em volume de vendas no ano passado, quando comparados aos valores de 2018, atingindo R$ 9,7 bilhões e 1,2 milhão de toneladas em 2019, respectivamente.

Devido ao baixo preço unitário, o crescimento foi impulsionado principalmente pelas categorias de massas instantâneas, que faturou R$ 2,6 bilhões e vendeu 168.000 toneladas.

Apesar disso, as massas secas ainda foram as mais consumidas, com 959.000 toneladas, equivalentes a R$ 4,9 bilhões. As vendas dos tipos comuns aumentaram 11%, com um crescimento expressivo de 17,7% em faturamento, totalizando cerca de R$ 1 bilhão.

Como avalia o impacto do dólar alto e instável este ano sobre os preços de venda de massas pois integram a cadeia do trigo, muito dependente de importações?
Um dos principais reflexos da escalada do dólar é o reajuste do custo em relação aos produtos da cesta ABIMAPI (influência cambial) pelo aumento da farinha de trigo – ingrediente básico das categorias representadas pela entidade. O Brasil produz menos da metade do trigo consumido e precisa importar grandes quantidades do Mercosul (sobretudo da Argentina) Canadá e EUA. Nas massas, em média, 70% do custo é de farinha. Nos biscoitos, em média, o peso é de 30%, enquanto nos pães e bolos industrializados, a farinha representa, em média, 60% do custo. Se analisarmos o cenário atual, saímos de um dólar de R$ 4 em janeiro para a faixa de R$ 5,25 na reta final do primeiro semestre, uma valorização de 31%. Das 11 milhões de toneladas de trigo consumidas por ano no Brasil, cerca da metade vêm principalmente da Argentina, este ano com 30% de aumento, em média. As indústrias estão com estoque (de dois a três meses, a depender do fabricante) de trigo e produto acabado. O repasse foi iniciado em abril com um reajuste médio de 12%. De todo modo, este aumento tende a ser gradual, pois não há espaço para elevar os preços de uma só vez para o consumidor final.

Esse filme é massa

Embalagens al dente para um mercado servido em prato fundo

“O isolamento social sob a pandemia resgatou, em grande intensidade, o hábito da culinária em casa e, na sua esteira, multiplicam-se na mídia as receitas e informações desmentindo que cozinhar seja difícil e trabalhoso”, observa Aldo Mortara, diretor comercial da Vitopel, trem bala em filmes biorientados de polipropileno (BOPP) no Brasil. Nesse contexto, ele distingue, massas se dão bem devido ao preparo fácil e rápido e pela diversidade de molhos e acompanhamentos. “O público de restaurantes que ainda não aderiu à cozinha em casa mantém o consumo de massas prontas via delivery”, insere o dirigente, convicto de que a comida feita no lar não vai esmorecer após a pandemia. “O trabalho e tempo dispendidos são compensados pela economia gerada, pelo prazer do preparo e pela percepção de se estar consumindo alimentos saudáveis”.

No plano geral, assinala Mortara, as estruturas para massas secas, como macarrão, são laminadas. “Constam de um filme interno de PP cast, para garantir resistência ao impacto e perfuração, e, laminada com adesivo, uma camada de BOPP, em regra de 20 micra e impressa com alto brilho do lado interno”, ele descreve, estimando em 40-50% a participação de BOPP no laminado final. A participação da Vitopel neste mercado é discreta, ele reconhece, decorrência da super-oferta, a cargo inclusive de filmes importados depressora dos preços deste tipo de BOPP. “De 2014 a 2016 massas mobilizavam perto de 10% do nosso volume de vendas, percentual em declínio desde 2017 a ponto de cair a 5% em 2019”.

BOPP: banho de loja nas propriedades

Filmes de polipropileno biorientado (BOPP) são um dos principais ancoradouros do negócio de materiais auxiliares da petroquímica holandesa LyondellBasell no Brasil. “Fornecemos as resinas de selagem Adsyl®, capazes de proporciona alta velocidade e estabilidade a BOPP no processo de acondicionamento de massas secas como macarrão”, acentua Roberto Castilho, diretor comercial responsável pela América do Sul. No cercado dos masterbatches, ele distingue os modificadores Polybatch® CPS 606 por aumentarem a rigidez, resistência à punctura e a barreira ao vapor d´água da película. No arremate, ele põe na vitrine três concentrados da série Polybatch®: o antiestático ASPA 2485; o tipo deslizante KER 5 e o antiblocking 0502 SC. “Conferem excelente maquinabilidade e apelo visual à embalagem, a exemplo de brilho e transparência”.

O histórico demonstra que a procura por BOPP para embalar massas era pautada pelos quesitos do brilho, transparência e resistência mecânica, delimita Mortara. “Com a automação dos processos de enfardamento, passou-se a exigir de BOPP um deslizamento adequado à boa formação do envoltório pela máquina”, ele esclarece. “Isso também evita que os pacotes deslizem entre si, prejudicando o alinhamento da pilha de embalagens prontas na operação de enfardamento”. Para corresponder ao cordão de expectativas, a Vitopel debruçou-se sobre a concepção de um filme que aliasse os atributos de BOPP e PP cast, além da resistência de selagem para prover integridade ao pacote da indústria ao lar do comprador. “O filme resultante foi codificado como HIS (High Impact Seal), mandou bem em testes como o de transporte e permite o desenho de uma embalagem monomaterial com impressão externa, menor gramatura e maior reciclabilidade que o convencional laminado para massas secas”, destaca Mortara. “Por tratar-se de um conceito disruptivo, este desenvolvimento requer um tempo de maturação para o reconhecimento de sua proposta”.

Luiz Alberto Absy, gerente de vendas de BOPP da Innova, atribui ao filme 40% de participação nas soluções de acondicionamento de massas secas e instantâneas no país. “É forte o crescimento potencial dessas embalagens, devido à condição da massa de alimento básico, acessível e de fácil preparo e preservação”, ele justifica, admitindo a possibilidade de as vendas do produto conservarem o fulgor aferido na quarentena após a pandemia, efeito da inclinação de um contingente de consumidores, esfolados pela recessão, por cozinhar em casa. “Além do apelo visual, BOPP sobressai no segmento de massas devido à redução de até 25% no peso da embalagem proporcionada por recentes avanços tecnológicos, convergindo para uma vida de prateleira maior”.

PP: inovações que tornam o filme uma super produção

Única produtora de polipropileno no país, a Braskem calcula em torno de 170.000 toneladas a produção do filme biorientado da resina (BOPP) em 2019 e embalagens alimentícias detiveram de 70% a 75% desse total, estabelece o engenheiro Francisco Carlos Ruiz. Entre os grades de seu mostruário talhados para lapidar o desempenho de embalagens de BOPP para massas, o especialista enaltece o balanço de propriedades das resinas PF 33 e DP 228A. Quanto a esta última, ele ressalta como inovação a relação entre ajustes na massa molar e na cristalinidade. “Essa conjugação de atributos proporciona propriedades ópticas diferenciadas, entre elas brilho e transparência e características mecânicas inatingíveis por resinas convencionais”, salienta Ruiz. “O grade DP 228A também suporta taxas de estiramento maiores, permitindo elevar até 25% a rigidez do filme biorientado, aprimorando assim sua barreira à umidade, oxigênio e dióxido de carbono.

Quanto ao tipo PF33, Ruiz explica que sua manipulação nos reatores de polimerização torna sua cristalinidade mais adequada aos processos de orientação, em especial no forno de orientação transversal. “O resultado é uma distribuição de massa na espessura mais uniforme do que a de uma resina padrão, ensejando dessa forma uma significativa diminuição da parede da película sem afetar sua performance mecânica”. Conforme detalha, esse ajuste de propriedades decorre da redução das temperaturas de estiramento, o que também favorece a economia energética na produção de BOPP. “Testes práticos demonstraram a possibilidade de baixar até 15ºC as temperaturas nas zonas de pré-aquecimento e estireno do forno de orientação transversal”.

Somadas a biscoitos e ao reduto de panificação, massas formam um compartimento tão prezado pela Polo Films que é atendido com seis tipos de BOPP do seu portdólio. “Os três segmentos mobilizam, pelo menos, 20% do nosso volume total de vendas”, dimensiona o diretor comercial Luciano Ost. “Desde 2014 crescemos 47% nos fornecimentos a clientes diretos e, para este ano, esperamos uma expansão de, no mínimo, 7% no acondicionamento de massas e similares, um incremento justificado pela nossa operação comercial e pelos impactos do isolamento social”.

Ost fecha com a corrente de que as restrições de mobilidade impostas pelo corona repaginou hábitos cotidianos, entre eles o de cozinhar em casa. “Daí a explosão constatada na quarentena do consumo de massas e molhos, favorecendo por tabela as suas embalagens”. O diretor confia que a recessão manterá esta demanda em fogo alto, pois deve escantear gastos não essenciais no orçamento doméstico, entre eles comer fora de casa. Para marcar de perto este prato fundo, Ost salienta assediar massas com, pelo menos, quatro gramaturas de BOPP e uma família de filmes de PP cast para laminação, “acompanhando assim a tendência sustentável de embalagens flexíveis monomaterial”, ele completa.

Fonte: Plásticos em Revista | Postado em: 05/08/2020