Edson Kawabata, sócio-diretor da Peers Consulting + Technology, revela os resultados financeiros do primeiro trimestre de 2026 das principais empresas do setor de alimentos e bebidas.
O período analisado revelou um setor navegando em águas turbulentas do lado da receita, mas com capacidade de proteger, e em alguns casos expandir a rentabilidade. Os três players analisados, 2 de alimentos (Camil e Mdias Branco) e 1 de bebidas (Ambev), enfrentaram dinâmicas de preço adversas em suas categorias centrais: deflação de commodities no caso da Camil, pressão competitiva e queda de preço médio na M. Dias Branco, e volume consolidado ainda em contração na Ambev. Em comum, todos conseguiram avançar em margem bruta, sinalizando que a gestão de custos e o trabalho de mix de portfólio têm funcionado como amortecedores relevantes.
Desempenho dos Principais Players
Ambev
Inflexão em cerveja no Brasil muda a narrativa: A Ambev entregou o resultado mais surpreendente entre os players analisados, e a reação do mercado foi proporcional: as ações da companhia saltaram 15,3% no dia do resultado.
O epicentro da surpresa foi o volume de cerveja no Brasil. Em um cenário em que se esperava queda, os volumes cresceram 1,2% a/a, atingindo um recorde para primeiros trimestres e indicando ganho de participação no sell-in. O recorte por segmento explica a dinâmica: as cervejas premium cresceram cerca de 20%, as saudáveis cerca de 70% e as sem álcool cerca de 10% — volumes que compensaram a queda nas cervejas core. O preço médio avançou 8% a/a, sustentado por esse mix mais rico. A receita líquida por hectolitro atingiu R$ 571,1, crescimento orgânico de 11,4%.
Esse contexto indica um fortalecimento do portfólio da companhia no Brasil, com volumes crescendo mesmo com bases mais exigentes e preços ajustados sem perda de participação de mercado.
No consolidado, porém, o quadro foi mais misto. As bebidas não alcoólicas (NAB) recuaram 3,9% no Brasil, enquanto CAC, LAS e Canadá registraram quedas de volume de 6,9%, 0,5% e 2,0% respectivamente. O volume total orgânico ficou praticamente estável (+0,1%), e a receita líquida consolidada caiu 0,1% em reais. Apesar disso, a gestão de custos e mix mais favorável permitiram que a margem EBITDA avançasse 0,5 p.p., para 33,6%, com o EBITDA ajustado crescendo 1,5% e o lucro líquido ajustado avançando 0,3%. A piora no resultado financeiro — maiores custos com hedge cambial e commodities — foi o principal limitador do lucro.
A companhia espera arrefecimento de custos a partir do 2T26 e está confiante no cumprimento do guidance de CPV/hl para cerveja Brasil entre +4,5% e +7,5%, com a Copa do Mundo como vetor adicional de curto prazo para volumes.
M. Dias Branco
Lucro cresce 53% na linha, mas receita estável e EBITDA abaixo do consenso frustram mercado: A M. Dias Branco viveu no 1T26 um paradoxo: os números cresceram onde era esperado que não crescessem — volumes e margens —, mas decepcionaram onde o mercado projetava entrega — preço médio e EBITDA.
Do lado operacional, o volume de vendas cresceu 3,4%, para 408 mil toneladas, com ganhos de market share em biscoitos e crackers e farinha de trigo. O contexto é relevante: os mercados de biscoitos e massas contraíram 4% a/a em volume no Brasil, segundo dados Nielsen, o que torna os ganhos de participação ainda mais expressivos.
O problema veio pelo lado do preço. Os preços médios recuaram entre 3% e 5% na comparação anual, puxados pelo maior peso de categorias como farinha industrial, farelo e gordura vegetal para o food service — segmentos de volume alto mas margem mais magra. Isso pressionou o mix de receita: os produtos core (biscoitos, massas e margarinas) perderam 200 bps de participação na receita, compensados por ganhos de mesma magnitude em moagem de trigo e óleos de refino. Com isso, a receita líquida cresceu apenas 0,4% a/a, para R$ 2,22 bilhões, apesar do avanço de volume.
O que sustentou a rentabilidade foi a queda de custos de matérias-primas. Os custos variáveis recuaram de R$ 3,00 por quilo no 4T25 para R$ 2,70 por quilo no 1T26, em função de dinâmica mais favorável de trigo e açúcar. A margem bruta avançou para 32,4% — mas ainda longe das médias históricas da companhia. O EBITDA somou R$ 196 mi, alta de 21,8% a/a, com as despesas com vendas atingindo 20,5% da receita — o maior nível em cinco anos.
Camil
Deflação do arroz impacta receita; mas mix de alto valor aponta resiliência: A Camil viveu um capítulo mais agudo de um desafio que enfrenta há mais de um ano: o crescimento de volume de 8,9% a/a foi compensado pela queda de 45,5% no preço do arroz na comparação anual. A dinâmica ilustra de forma o risco inerente ao modelo de negócios de commodities: volume e receita podem se mover em direções opostas quando a deflação de preços é dessa magnitude.
No segmento Alto Giro (arroz, feijão e açúcar), que representa 59% do total, os volumes atingiram 292,9 mil toneladas, alta de 9,8% a/a, mas o preço líquido caiu 26,6%, para R$ 3,29/kg. O feijão ofereceu compensação parcial, mas não foi suficiente para neutralizar o impacto do arroz e do açúcar.
A margem bruta foi o ponto positivo do trimestre. Mesmo com receita menor, a margem bruta expandiu quase 400 bps a/a, para 21,7%, impulsionada pela operação no Brasil, sinal de que a companhia conseguiu repassar a queda de custo de matéria-prima em proporção superior à queda de preço de venda. O EBITDA ajustado somou R$ 192,8 mi, praticamente estável a/a, com margem de 7,7%.
A companhia encerrou o período com prejuízo líquido ajustado de R$ 40,3 milhões, reflexo da combinação entre queda de receita, resultado financeiro pressionado por alavancagem ainda elevada (3x dívida líquida/EBITDA) e juros altos.
Perspectivas e Tendências para o Setor
O volume como métrica “enganosa” — e a margem como âncora real: O período analisado reforça um aprendizado central para o setor de Alimentos & Bebidas: crescimento de volume e crescimento de receita não são sinônimos, e nenhum dos dois necessariamente se traduz em rentabilidade. Camil cresceu volume quase 9% e perdeu 16% de receita. M. Dias Branco cresceu volume 3,4% e ficou com receita praticamente estável. Ambev cresceu volume de cerveja no Brasil pela primeira vez em anos e o mercado celebrou como se fosse uma virada estrutural. Em todos os casos, o que sustentou ou destruiu valor foi a margem.
Premiumização como estratégia de saída do ciclo de commoditização: O caminho mais evidente que os três players estão trilhando, em estágios diferentes de maturidade, é a atenção para produtos de maior valor agregado como proteção estrutural contra a volatilidade de preços de matérias-primas. Na Ambev, isso se traduz no crescimento de 20% das cervejas premium e de 70% das saudáveis. Na M. Dias Branco, são as “adjacências” e marcas como Jasmine e Frontera crescendo nos últimos períodos, sinalizando que o portfólio de alimentos saudáveis e snacks pode ser o novo motor da companhia. Apesar de não ser o “core” para muitos players, quem conseguir avançar nessa transição de mix reduz sua exposição ao ciclo de commodities e constrói rentabilidade mais sustentável.
Desafios e Oportunidades (Visão Macro)
Oportunidades: Copa do Mundo 2026 na América do Norte como acelerador sazonal de volumes de cerveja; eventual alta do preço do arroz normalizando a receita da Camil, dada a pressão já sobre a margem do produtor rural; possível corte da Selic beneficiando companhias alavancadas como Camil via menor despesa financeira.
Desafios: Consumidor ainda pressionado por juros altos e endividamento, comprimindo o consumo das categorias mais sensíveis a preço; pressão competitiva em categorias tradicionais, como massas e biscoitos dificultando repasse de preço pela M. Dias Branco; sustentabilidade das margens da Ambev fora do Brasil ainda incerta; alavancagem da Camil ainda elevada, limitando flexibilidade financeira enquanto a recuperação de preço do arroz não se materializa.
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