As indústrias de alimentos e bebidas serão as primeiras a ter de reinventar se. E empresas aéreas e de vestuário também arcarão com sua cota de refor-mulação, considerando-se os estudos já elaborados em mercados onde a penetração do uso das canetas emagrecedoras é maior. Vale lembrar como eles funcio-nam: os medicamentos, agrupados sob a denominação de agonistas do GLP-1 (um hormônio responsável pela sensação de saciedade), acarretam uma perda de peso comparável à das cirurgias bariátricas e costumam ser associado a um estilo de vida mais saudável, o que inclui alterações comportamentais, como a adoção de uma alimentação mais equilibrada e prática de exercícios físicos.
Nos Estados Unidos, um mercado onde o uso do medicamento começou antes e em escala maior, dado o poder aquisitivo da população, a consultoria KPMG estima que a indústria alimentícia experimentará uma redução anual de receita de US$ 48 bilhões pelos próximos dez anos devido ao avanço desse tipo de medicamento. É uma estimativa que pode ser conservadora, diz o próprio relatório. Paralelamente, o merca-do global de GLP-1 deve crescer a uma taxa anual composta de quase 30% até 2030. Mesmo que os gostos alimenta- lares de brasileiros e norte-americanos não sejam os mesmos, há similaridades comportamentais. Nos Estados Unidos, o sobrepeso alcança 72,9% da população adulta e a proporção de obesos chega a 43%. O estudo da KPMG aponta que 3,5% dos norte americanos já fazem uso da classe de medicamento que inclui o Ozempic e o
Mounjaro. A parcela corresponde a cerca de 13 milhões de usuários. O número está em crescimento contínuo. Quem toma o remédio, informa o relatório, passa a consumir 21% menos calorias e a gastar 31% menos nas compras mensais, o que explica o cálculo anual projetado para o setor de alimentos e bebidas nos Estados Unidos. Apesar de ter uma população menor, o Brasil apresentou um considerável aumento no número de pessoas na faixa de sobrepeso em apenas duas décadas, de 43% para 63% população. Em se tratando
de obesidade, o contingente mais que dobrou no mesmo período, de 12% para 26%. Na esteira disso vem crescendo a busca por redução da ansiedade, derivada de maior consciência sobre o estilo frenético de vida resultante do uso de internet e redes sociais, e hábitos mais saudáveis que possam aliviar um pouco a rotina. Levadas em contas as projeções mercadológicas, nos próximos 18 meses o país passará a contar com um punha-
do de empresas habilitadas a produzir seus próprios agonistas de GLP-1 com um custo 35% menor. “Isso muda o cenário”, afirma Fernando Gamboa, sócio-íder de consumo e varejo na KPMG do Brasil.