Alimentos e Bebidas: Indústria investe em inovação

Perspectivas 2026 – Indústria investe em inovação para atender consumidor mais ávido por alimentos saudáveis.

O aquecimento das demandas por saudabilidade e funcionalidade oxigenou o mercado de alimentos e bebidas. Não por acaso, as projeções indicam que a indústria tende a ampliar o uso da biotecnologia e a tornar seus processos mais eficientes, digitais e sustentáveis.

Neste contexto, segundo Gisele Camargo, vice-coordenadora e diretora de Programação de Pesquisa do Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital-Apta), o setor deverá ser impulsionado por avanços no desenvolvimento de ingredientes inovadores e soluções com maior valor agregado.

Dessa maneira, para Camargo, tende a se intensificar a interação entre a iniciativa privada e instituições de ensino e pesquisa, com destaque para o papel do Ital, como parceiro estratégico no desenvolvimento, validação e escalonamento de tecnologias.

“Essa atuação conjunta deve acelerar a transformação do conhecimento científico em soluções aplicáveis ao mercado, contribuindo para a competitividade do setor, a sustentabilidade dos sistemas produtivos e a promoção da saúde”, afirma.

A alimentação do futuro, no entendimento do Ital, aliás, está associada a sistemas alimentares mais sustentáveis, que conciliem qualidade nutricional, segurança, redução de impactos ambientais e acessibilidade para a população. Segundo Camargo, o conceito envolve o emprego mais eficiente de recursos, valorização da biodiversidade, diminuição de desperdícios e desenvolvimento de produtos alinhados às novas demandas de consumo e saúde pública.

De modo geral, a indústria de alimentos e bebidas tem buscado incorporar novos ingredientes, com foco em soluções naturais, plant-based e funcionais. Esse movimento reflete a crescente procura do consumidor por produtos com melhor perfil nutricional e menor grau de artificialização. No entanto, Camargo pontua ainda haver espaço para avanços, especialmente, no desenvolvimento de tecnologias nacionais para a produção de ingredientes direcionados à aplicação em alimentos que conciliem funcionalidade tecnológica, estabilidade, desempenho sensorial e viabilidade industrial.

Segundo Bianca Nascimento, analista de comunicação, da Döhler, saudabilidade e funcionalidade são demandas de mercado que continuam ampliando opções em bebidas prontas para consumo e snacks.

“Esse é um movimento que deve continuar crescendo em 2026, aliado a produtos mais divertidos e lúdicos, como lançamentos cross-category, sabores misteriosos e inovações em textura e cores, com foco em compartilhamento nas redes sociais e viralização”, diz Nascimento.

Sonia Romani, diretora técnica da Associação Brasileira das Indústrias de Biscoitos, Massas Alimentícias, Pães & Bolos Industrializados (Abimapi), destaca a importância dos alimentos funcionais. Segundo ela, a associação aposta na categoria, a fim de fortalecer a indústria por meio de produtos direcionados ao bem-estar e à saúde do consumidor.

Trata-se de uma resposta à expansão da demanda dos brasileiros por ingredientes mais saudáveis, como integrais, e ao crescimento do segmento free from (sem glúten, lactose ou açúcar).

“Essa inovação é uma oportunidade de diferenciação competitiva, permitindo que as marcas conquistem a fidelidade do consumidor que busca uma rotina saudável”, comenta Romani.

Amanda Brito, gerente de produto BU Aromas, da Döhler, acrescenta que o mercado de alimentos e bebidas é orientado por três pilares: saúde, sustentabilidade e conveniência. Segundo ela, o consumidor está buscando opções com perfil nutricional melhorado, rótulos mais simples, redução de açúcar, sódio e gorduras, além de ingredientes funcionais que tragam benefícios claros à saúde.

A responsabilidade ambiental também direciona a demanda do setor, tanto do ponto de vista de matérias-primas quanto de processos produtivos, embalagens e rastreabilidade. A conveniência se traduz em outra questão fundamental para o entendimento do consumo.

Brito explica que “a tendência é de aumento da procura por soluções práticas e formatos que facilitam o dia a dia.”

Mais natural – Segundo o Döhler Institute, 73% dos consumidores alegam que se sentem mais confiantes quando o produto contém corantes que eles reconhecem e 59% consideram importante o fato de um alimento ou bebida não conter corantes artificiais. Neste contexto, Patrícia Bonets, gerente de produtos BU Colours, da Döhler, observa dois grandes drivers na conversão de corantes artificiais para naturais.

Um deles é o regulatório. As alterações na legislação brasileira podem acelerar esse processo, assim como as movimentações regulatórias globais são capazes de impactar os mercados regionais na América do Sul como um todo. O outro drive diz respeito ao consumidor, pois ele está mais atento e preocupado com seus hábitos e olhando não apenas para o sensorial do produto, mas para a cadeia do ingrediente e os impactos que ele pode causar no meio ambiente.

“Nesse sentido, veremos o mercado se movimentando na direção dessa demanda e lançando cada vez mais produtos com lista reduzida de ingredientes e que sejam facilmente reconhecíveis”, afirma Bonets.

Hélvio Collino, presidente da Abiam (Associação Brasileira da Indústria e Comércio de Ingredientes e Aditivos para Alimentos) observa que parte dos consumidores, na atualidade, passou a associar ingredientes de fontes naturais a maior segurança, transparência e benefícios. Por isso, cada vez mais, se amplifica a tendência positiva para os naturais. “Este é um fator relevante ao setor uma vez que nos leva a maiores investimentos em inovações”, diz.

Vale lembrar que todos os corantes alimentares (naturais ou artificiais), antes de serem liberados para consumo são obrigatoriamente avaliados do ponto de vista toxicológico e tem seu uso regulamentado com base na Ingestão Diária Aceitável (IDA) e na necessidade tecnológica de sua utilização, sendo considerados absolutamente seguros.

Nos Estados Unidos e Europa, sobretudo, nota-se um movimento de proibição de alguns aditivos à base de petróleo. O Brasil, para Collino, encontra-se hoje em bom alinhamento com referências técnico-científicas globais e a diferentes bases regulatórias utilizadas em variados países.

Mais tendências – As mudanças quanto à legislação e às adaptações às consequências de crises climáticas, que diminuíram acesso a matérias-primas importantes como cacau e laranja, também tem tido forte impacto nos rumos do setor. Nascimento observa que, dessa forma, tecnologias como modulação de sabor e criatividade foram essenciais nesse processo, para que as formulações não tivessem rejeição no paladar do consumidor final.

Outra tendência é da brasilidade dos produtos. Sabores regionais ainda não tão explorados, como cajá e cupuaçu, além de itens com cores vibrantes e um sensorial refrescante, com toques frutais e botânicos, devem ganhar mais espaço entre os novos desenvolvimentos da indústria. “Estamos vendo um movimento global de olhos voltados ao Brasil”, comenta Nascimento.

Gislene Cardozo, diretora executiva da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos para Fins Especiais e Congêneres (Abiad), traz o uso de medicamentos análogos de GLP-1, como uma mudança significativa no campo da inovação. Segundo ela, o processo reorganiza hábitos alimentares, alterando necessidades de saciedade, tamanho de porções e a própria frequência de consumo de alimentos. Em tempo: o GLP-1 ganhou destaque, porque alguns medicamentos imitam sua ação (os chamados agonistas de GLP-1), como: semaglutida, medicamento que compõe as marcas comerciais Ozempic e Wegovy.

Ela acrescenta que, dessa forma, passa-se a exigir da indústria uma visão estratégica que não trate o tema como algo passageiro, pois significa atualizar portfólios e desenvolver produtos que atendam a um consumidor com demandas específicas.

“As empresas que incorporarem em seu planejamento de inovação, criando soluções que ofereçam autonomia e nutrição adequada, ocuparão um espaço no mercado”, diz Cardozo.

Pensando nos próximos passos da indústria de biscoitos, massas, pães e bolos industrializados, a Inteligência Artificial (IA) será essencial. “Prevemos uma integração voltada para a nutrição personalizada, na qual a IA formulará produtos com perfis nutricionais ajustados individualmente, como redução de sódio ou aumento de fibras, com base em dados de saúde e preferências dos consumidores”, atesta Claudio Zanão, presidente executivo da Abimapi.

No geral, a indústria já utiliza esta tecnologia, de forma estratégica, para otimizar a eficiência operacional e a sustentabilidade desde o campo até a logística final. Segundo Zanão, no chão de fábrica, sistemas inteligentes monitoram indicadores em tempo real para corrigir desvios e identificar falhas. Esta ferramenta também é aplicada na previsão de demanda para minimizar a superprodução e o desperdício de matérias-primas, no controle rigoroso da segurança alimentar, detectando sinais de deterioração e o desenvolvimento de produtos inovadores que replicam estruturas moleculares de origem animal em versões vegetais.

Em alta – Pautada por dinamismo e inovação, a indústria de alimentos e bebidas cresce em várias frentes. De acordo com a Euromonitor, o mercado global de alimentos saudáveis deve ultrapassar US$ 1 trilhão até este ano. Segundo Gislene Cardozo, o segmento nacional contribui de forma ativa para este panorama. Entre janeiro e setembro de 2025, as exportações cresceram 20%, em relação ao mesmo período de 2024, alcançando a marca de US$ 848 milhões. “Esse desempenho é composto majoritariamente pela venda de complementos e suplementos alimentares e concentrados de proteínas, demonstrando a competitividade e a qualidade reconhecida dos produtos brasileiros no exterior”, afirma

Aliás, as previsões da indústria de alimentos para fins especiais e congêneres dialogam diretamente com esta expansão. Segundo Cardozo, o avanço do consumo aparente e o aumento das exportações e da geração de empregos indicam um ambiente favorável para a continuidade do desenvolvimento do setor.

Os dados mais recentes da Abiad demonstram que o consumo de suplementos alimentares no Brasil tem crescido. No período de janeiro a setembro de 2025, em comparação com os primeiros nove meses de 2024, os complementos alimentares e suplementos vitamínicos registraram aumento de 3,5% no consumo aparente; enquanto vitaminas apresentaram alta de 23,8% no mesmo período.

No geral, a indústria em 2025 confirmou um cenário de crescimento contínuo. Segundo Cardozo, o desempenho foi impulsionado, sobretudo, por segmentos como vitaminas e produtos com ingestão controlada de açúcar (como produtos diet e zero), que contribuíram para uma alta de 4,6% no consumo aparente nos primeiros nove meses de 2025, na comparação com o mesmo período de 2024.

O setor de ingredientes e aditivos para alimentos também registrou crescimento em 2025. Segundo Hélvio Collino, este é o reflexo da plena segurança e benefícios dos produtos, da maturidade técnica e empresarial das empresas e de sua capacidade de adaptação a um ambiente regulatório e de mercado cada vez mais dinâmico.

Mesmo diante de desafios econômicos e da pressão constante por eficiência, o setor manteve um desempenho consistente, acompanhando a evolução da indústria de alimentos como um todo e reforçando seu papel estratégico na cadeia produtiva.

“A inovação seguiu como um dos principais vetores de crescimento, com destaque para o desenvolvimento de soluções voltadas à saudabilidade, funcionalidade, sustentabilidade e segurança dos alimentos, alinhadas às expectativas dos consumidores e às exigências regulatórias”, afirma Collino.

Em linha com este movimento, a indústria de ingredientes e aditivos para alimentos projeta, para este ano, crescimento bem moderado como vem ocorrendo nos últimos anos. Collino condiciona o desempenho da indústria ao cenário econômico e ao comportamento do consumo que segue, segundo ele, complicado devido a fatores como a alta elevação do custo de vida pós-pandemia. “Não obstante, o setor deverá seguir investindo em inovação, produtividade e eficiência, com foco no desenvolvimento de ingredientes e aditivos que agreguem valor à indústria de alimentos e aos consumidores”, diz.

A indústria de biscoitos, massas, pães e bolos industrializados encerrou 2025, com aumento de 3,2% do faturamento, atingindo R$ 70,5 bilhões e volume de 4 milhões de toneladas. O valor está dentro da média dos últimos anos, que varia entre 3 e 5%, segundo Cláudio Zanão. “Alcançamos dados positivos, mesmo diante do cenário brasileiro com taxa de juros de 15%, fator que reduziu investimentos e consumo em 2025”, pontua.

Biscoito é a maior categoria em faturamento e volume: no ano passado, cresceu 1% em valor, com faturamento de R$ 34,1 bilhões e volume de 1,5 mihão de t. Em seguida, estão as massas alimentícias, com crescimento de 2,9% no faturamento, somando R$ 15,5 bilhões e 1,3 milhão de t. Pães industrializados apresentaram um desempenho positivo de 6% de crescimento no faturamento (R$ 16,5 bilhões) e volume de 793 mil t.

Os bolos industrializados superaram a média das categorias básicas, com boa performance em valor: 9,6% (faturamento de R$ 2,9 bi) e 65,5 mil t.

“A mistura para bolo é a categoria de destaque em termos percentuais de crescimento, com 14,9% em faturamento (R$ 1,5 bi) e volume de 175,5 mil t”, acrescenta Zanão.

O crescimento da cesta Abimapi resulta de uma combinação de estratégias. Nos últimos anos, a articulação de relações governamentais conseguiu incluir pães de forma na cesta básica nacional, garantiu isenções e reduções de impostos, o que aumentou a acessibilidade desses produtos essenciais e estimulou o volume de vendas.

Em 2025, as indústrias brasileiras de biscoitos, massas alimentícias e pães e bolos industrializados registrou um faturamento de US$ 250,5 milhões nas exportações, representando uma alta de 6,4% em valor e 1,8% em volume (96,4 mil t), em relação a 2024.

“O resultado é fruto de um extenso calendário de atividades internacionais promovido pelo Amazing Foods Brasil, projeto setorial voltado para a promoção das exportações, desenvolvido em parceria entre Abimapi e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil)”, explica Rodrigo Iglesias, diretor internacional da Abimapi.

Regulação – Os órgãos regulatórios brasileiros vêm passando por um processo importante de aperfeiçoamento. Segundo Collino, a participação cada vez mais ativa das associações setoriais, em fóruns internacionais e o alinhamento com referências técnico-científicas globais demonstram um avanço significativo na qualidade regulatória, especialmente no que diz respeito à segurança de ingredientes e aditivos alimentares.

O principal desafio, no entanto, ainda está relacionado aos prazos de tramitação dos processos, que acabam sendo impactados pelo número reduzido de técnicos disponíveis. “Esse cenário exige que as empresas considerem esse fator de forma estratégica no planejamento e no lançamento de novos produtos, para evitar atrasos e gargalos no mercado”, afirma Collino.

De qualquer maneira, foram publicadas resoluções para reduzir impactos operacionais e desperdícios na consolidação do novo marco regulatório para alimentos e embalagens no Brasil, estabelecido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) através da RDC nº 843/2024. Gisele Camargo explica que para produtos revalidados automaticamente, a RDC nº 975/2025 determinou o prazo de 31 de março de 2026 para adequação de rotulagem se contiver aditivo alimentar com número INS ou nome a ser atualizado, podendo sua comercialização ocorrer até o fim do prazo de validade.

Por sua vez, as RDCs nº 983/2025 e 990/2025, ainda segundo Camargo, estenderam até 1º de setembro de 2026 o prazo para inclusão do novo número de regularização em embalagens e rótulos de fórmulas metabólicas, alimentos para controle de peso e suplementos alimentares exclusivamente para esgotar esses materiais.

Ela acrescenta que a Anvisa também atualizou as diretrizes para a determinação do prazo de validade, publicando a terceira versão do Guia nº 16/2018, referência para a condução de estudos de estabilidade físico-químicos, microbiológicos e sensoriais.

“Foram atualizados protocolos, métodos e rotinas no documento, que está mais objetivo”, comenta Camargo.

Em 2025, a prorrogação da normativa estabelecida pela Anvisa, RDC 839/25 impactou o setor. Essa regulamentação foi estabelecida para garantir que os suplementos estejam em conformidade com padrões de qualidade e segurança. Essa mudança introduz a emissão de um número de identificação exclusivo para cada produto, promovendo maior rastreabilidade e assegurando o cumprimento das normas de segurança.

A partir dessa atualização, se tornou obrigatória a inclusão, no rótulo dos suplementos, da expressão “Alimento notificado na Anvisa”, acompanhada do número do processo de notificação. Os fabricantes terão até o dia 1° de setembro deste ano para se ajustar às novas exigências. “A evolução das exigências é bem-vinda, pois reforça a rastreabilidade, apoia a fiscalização e garante ao consumidor acesso à informação e a produtos confiáveis, fortalecendo a credibilidade de todo o setor”, conclui Cardozo.

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